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Adopte uma abordagem de design durante e depois do Covid19. Porquê?

A Natureza impôs-nos um desafio. A Sociedade e a Economia procuram soluções para sairmos desta crise. As empresas mostram-se preocupadas, e com razão, com o futuro e com a sua sustentabilidade. É um problema global. Mas um problema não tem necessariamente de ser conotado como mau. É um princípio. Um factor que nos leva a colocar perguntas na expectativa de uma resposta. O Design pressupõe esse percurso, partir de um problema e criar uma solução. A abordagem em design e a sua metodologia podem ajudar a potenciar uma transformação positiva.

1. A incerteza faz parte do processo e é normal.

Nas indústrias criativas, seja no design ou na arquitectura, há uma verdade inabalável, partimos sempre de um problema mal definido e somos chamados a encontrar uma solução muito bem definida. Por muito claro e sucinto que um pedido possa ser, a análise ao problema identificado e a definição de oportunidades criam (e bem) muitas incertezas que devem ser clarificadas ao longo do processo. É por isso que existe um processo, para clarificar e para tornar as incertezas em certezas.

A procura por informação na fase de pesquisa torna o processo de design divergente, onde se colocam perguntas e se desfazem determinados pressupostos. A ideação cria alternativas sobre as quais devemos decidir e implementar, mesmo sem uma certeza absoluta de que a nossa escolha foi a mais acertada. A prototipagem serve precisamente para testar uma determinada característica sobre a qual não se tem a certeza. É uma constante. A incerteza acompanha todo o processo de design. 

Vivemos tempos de incerteza. É certo. Mas encaremos o futuro como um projecto de design e apliquemos a metodologia de forma a eliminar o mais possível essas tais incertezas.

At the start of the design process, the designer is usually faced with a very poorly defined problem; yet he or she has to come up with a well-defined solution.

Nigel Cross

2. Constrangimentos? Essa é a energia da criatividade.

Estão a ser agora colocados vários constrangimentos às diferentes actividades económicas, mas não só. Também o consumidor irá alterar os seus hábitos de consumo e com isso afectar a forma como as marcas deverão desenvolver e promover os seus produtos. Mas o que seria a capacidade imaginativa do ser humano sem constrangimentos?

Em certos projectos ouve-se a expressão: “não vos quero dar constrangimentos para não condicionar a vossa criatividade”. Não funciona. Não há criatividade sem constrangimentos. São esses mesmos constrangimentos que colocam o nosso cérebro em alerta e permitem o debate e a discussão em redor de um problema. No design, constrangimentos são bem-vindos, muitos. E podemos enumerar alguns como: Nós próprios, o que sabemos e o que temos capacidade de fazer; o nosso Cliente; a Indústria, o que é possível ou não fazer; o Consumidor final, como usa e como entende determinado produto; os Fornecedores; os Produtores; os Distribuidores; as Leis e Normas; o próprio Tempo que nos é dado para concluir um projecto; a Sociedade em geral e as Tendências; o Ambiente e a sustentabilidade do planeta. 

Estes constrangimentos alimentam as incertezas, mas também criam as condições para que efectivamente um projecto seja coeso e estruturado, e que produtos entrem no mercado e tenham um impacto positivo nas vidas das pessoas. Os constrangimentos que hoje se colocam podem potenciar a inovação. Precisamos de agir e adaptar. 

Frame the mystery that needs to be solved. Instead of telling us what we cannot do, constraints help us reframe the problem and discover new opportunities in the process.

Roger Martin

3. Colaboração não é apenas uma buzzword. O Design sabe disso.

O design de novos produtos é tudo menos uma atividade solitária. A ideia romântica de alguém sentado à secretária, a desenhar, e que de repente é atingido por um raio de inspiração e cria um novo produto, não existe. Nem é interessante.

O trabalho em equipa na área do design é uma realidade e é uma das mais valias do processo de desenvolvimento de produtos. Mas esta colaboração não se esgota na equipa que desenha. Pois se não houver colaboração entre a equipa de design, as equipas do cliente e o utilizador, não há design. Há provavelmente uma ideia e uma imagem que nunca sairá do papel.

É preciso, para o sucesso de um produto, saber colaborar com os departamentos comerciais, departamentos de marketing, equipas de engenharia e produção, cadeias de logística e fornecimento, fornecedores externos, entre outros. E também saber trazer o utilizador para dentro destes processos colaborativos. Não é fácil, mas no fim compensa.

A magia da colaboração torna os processos mais céleres. As equipas ficam alinhadas e os resultados são partilhados por todos. Estes novos tempos pedem por colaboração. Colaboração estratégica e estruturada. Entre pessoas, entre empresas, entre entidades, entre todos.

He (designer) knows how to work with others, meeting executives on an equal footing and still gaining the confidence of the man on the bench.

Harold Van Doren

4. Utilidade, por favor. Mais do que nunca.

O design é um processo complexo mas tem um objetivo simples: tornar os produtos, marcas e serviços, úteis para quem os usa. A utilidade de uma ideia é essencial no seu sucesso. É aquilo que diferencia a invenção da inovação. A invenção é apenas algo novo. A inovação é algo novo que traz utilidade ao consumidor. 

O processo de design, com todas as suas ferramentas de aproximação ao consumidor, procura apenas uma coisa, criar empatia. Pela empatia conseguimos assimilar os problemas reais das pessoas e com isso criar soluções orientadas para essas necessidades, potenciando a utilidade.

Mais do que nunca, o futuro irá exigir produtos úteis e com significado. Produtos que tragam utilidade e sentido às pessoas (utilizadores), tornam-se sustentáveis, a longo prazo. Como agentes da cultura material, os designers / empresas de design em colaboração com as empresas / marcas de produto, devem assumir esta responsabilidade e criar as condições para um futuro sustentável. Recordo: útil > significado > sustentável. Para tal, foco nas pessoas.

Good design makes a product useful. A product is bought to be used. (…) Good design emphasizes the usefulness of a product whilst disregarding anything that could possibly detract from it.

Dieter Rams

Adote uma abordagem de design na sua empresa. Transforme os seus problemas em projetos de design. Abrace as incertezas e os constrangimentos. Colabore (muito). Ponha as pessoas/utilizadores em primeiro lugar e procure por utilidade e significado.