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O teu melhor portfólio não é sobre o teu trabalho.

Os meus dois chapéus dão-me algumas vantagens interessantes. 

Como professor, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, tenho a oportunidade de orientar e ser mentor das futuras gerações de designers. Como gestor e director criativo, na Inngage, tenho a responsabilidade de guiar e proporcionar um crescimento sustentável, e criativo, a quem connosco colabora.

A realidade académica é diferente da realidade profissional. Mesmo com a aproximação cada vez mais natural entre o mundo académico e o mundo empresarial, as diferenças irão sempre existir. Mas isso é outra estória. O que aqui é curioso é que eu apanho os “miúdos” numa fase de transição, e num dia estou a ajudá-los a terminar o semestre ou a defesa da tese, e no dia a seguir estou a entrevistá-los. E o chapéu muda, assim como os requisitos e critérios.

Recebo, por semana, vários portfolios e candidaturas espontâneas. De todo o mundo. E após 8 anos nisto, tenho algumas considerações sobre o tema. Aos designers que estão neste momento a criar portfólio e a responder a ofertas de trabalho, aqui vai:

1. Não mostres só o que já fizeste, mostra o que sabes fazer.

Interessa-me saber o que já fizeste, claro, mas eu não vou comprar aquilo que já criaste no passado. Entende isto: não me estás a vender produtos, estás a vender um processo e uma forma de trabalhar. Se eu não entender a forma como chegaste a determinado resultado, eu não consigo relacionar como irás colocar esse processo em prática dentro da minha empresa. É mais eficaz ilustrares o teu processo com base em trabalhos que já tenhas feito. 

A reter: as empresas compram processos, logo mostra-me o teu processo.

2. E tu quem és? 

A verdade é que eu vou passar grande parte do dia contigo. Provavelmente vamos estar em reuniões juntos, vamos viajar juntos, fazer refeições juntos. Tu irás lidar com os teus colegas, terás de falar com fornecedores, irás fazer pesquisa com utilizadores, e quando chegar o momento vais ter de te relacionar directamente com clientes. Por isso, que tipo de pessoa és tu? Do que gostas? 

A reter: revela também a pessoa que és, não apenas o profissional.

3. Tempo é um recurso precioso, que todos apreciamos.

Se existe uma oferta de emprego para um júnior, uma pessoa com 8 anos de experiência não deve concorrer. Se existir uma oferta de emprego para um sénior com mínimo 8 anos de experiência em trabalho de agência, então um júnior com um estágio profissional feito numa indústria não deve concorrer. Isto parece óbvio, mas ao volume de candidaturas desajustadas que recebo leva-me a crer que é importante reforçar a ideia, para todos pouparmos tempo. 

A reter: ler uma oferta de emprego é como ler um briefing, com atenção.

4. És designer? Então qual é “o meu” problema que estás a tentar resolver?

Parte do nosso trabalho enquanto designers pressupõe identificar problemas e necessidades de forma a criar as melhores soluções. Quando recebo uma candidatura, gosto de sentir que o candidato esteve algum tempo a explorar o que faz a minha empresa e qual o nosso posicionamento, de forma a propor uma estratégia clara para adicionar valor. O ideal é apresentar um portfólio tailor-made à empresa que estamos a abordar. Isso mostra foco. 

A reter: personaliza as interações, mais vale serem menos mas muito boas.

5. Não nos conhecemos e já queres um emprego? Que tal um encontro antes?

Acho que a espontaneidade é a melhor estratégia, em algumas situações. É uma questão de abordagem. Se vais abordar uma empresa, e se gostavas mesmo de trabalhar lá, porque não procuras marcar primeiro uma conversa, em vez de uma entrevista? Tenta marcar uma conversa, tenta perceber a conjuntura da empresa, o que se passa, quais as necessidades, quais as ambições. Passa de entrevistado a entrevistador. Vais deixar uma imagem muito mais positiva. 

A reter: convida alguém para uma conversa rápida sobre design.

6. Gráficos e escalas lineares, por favor não.

Não sou nada fã das escalas lineares e gráficos. Explico porquê. Se num CV me dizem que numa escala de 0 a 10 os conhecimentos de SolidWorks são de 9, então eu assumo que vocês são um dos fundadores do SolidWorks. Se nos basearmos nessa escala, é intelectualmente impossível saber tanto sobre um software, é impossível. Prefiro muito mais que reservem uma página do portfólio e me mostrem uma modelação Cad a indicar em que software foi feito. É bem mais credível. 

A reter: não digas que sabes fazer, mostra.

7. Referências. É importante saber quem tu admiras e o que gostas.

É muito raro, mas muito raro mesmo, ver por exemplo um moodboard num portfólio. Mas faz sentido. Através de um moodboard eu consigo perceber o teu estilo, consigo avaliar as tuas referências, consigo perceber como estruturas a informação e também entender que tipo de trabalho queres desenvolver. É quase como uma caracterização e ilustração sobre a tua cultura visual, que para a integração numa equipa é muito importante. 

A reter: depois de te apresentares, faz um moodboard sobre ti.

8. A primeira impressão é tudo. Mas é mesmo.

Parece um cliché, mas não é. Aparecer numa entrevista com uma pen na mão ou com o portfólio no telemóvel, não é bom, não façam isso. Levem um portátil ou um tablet. Imprimam o portfólio. Aperaltem-se. No fim deixem uma brochura física, no mínimo um cartão pessoal vosso. Qualquer coisa palpável que possa ficar em cima da mesa para estarem sempre no top of mind de quem vos pode contratar. A imagem que passarem no primeiro contacto é a imagem que fica associada à forma como irão executar o trabalho. 

A reter: apresenta-te com a mesma qualidade que irás fazer o trabalho.

Em resumo, a nota que fica é que é muito mais importante que eu consiga perceber o que sabes fazer, e como o fazes, do que propriamente aquilo que já fizeste. O que já fizeste serve para ilustrar a forma como vais criar valor na minha empresa. E isso é fundamental.

Já agora, dizeres numa entrevista que não segues um processo porque és criativo, não é fixe 😉